Vinho do Porto

Abril 30, 2010



Acho piada quando o meu pai diz que o vinho do Porto (e a VistaAlegre) são dos poucos produtos que nos promovem no estrangeiro. Em termos de desenho, as embalagens e tudo o que se refere à promoção do vinho do porto pode ser analisado com uma evolução. As suas representações, demonstram a mentalidade de cada época e a forma como viam o produto “vinho”.

“Os rótulos do Vinho do Porto revelam (ainda) algumas curiosidades em torno deste produto identitário de uma região. … o Vinho do Porto é apresentado como um produto com propriedades terapêuticas, algo bem diferente das actuais campanhas anti-álcool».
O vinho era embalado especificamente para as farmácias, onde era vendido como um tónico regenerante, indicado para astenias, depressões, problemas estomacais e outros males do corpo. «Algumas versões eram reforçadas com carne, o que o tornava mais nutritivo», acrescenta.
Numa outra variante terapêutica era adicionado quinino, os chamados vinhos quinados recomendados na profilaxia da febre-amarela. Neste caso pretendia-se atingir os mercados tropicais, onde as temperaturas elevadas certamente não convidavam ao consumo de um vinho com um elevado grau alcoólico».

Não foi com intenção e nem sabia da exposição do museu do Douro, antes de ir pesquisar sobre este assunto, mas o facto é que está a decorrer neste local uma exposição intitulada “Imagens do Vinho do Porto: Rótulos e Cartazes”, bastante interessante.

” Revelar o processo publicitário de um produto nacional ao longo dos anos é um dos objectivos da mostra que, do Peso da Régua, onde se situa o museu, seguirá para Gaia, assim como outras localidades da região duriense. Uma exposição que estará também patente em Lisboa. Natália Fauvrelle, coordenadora dos Serviços de Museologia, fala sobre esta iniciativa. O discurso da exposição ‘Imagens do Vinho do Porto’ centra-se em torno das imagens publicitárias produzidas para este produto até à primeira metade do século XX. Os rótulos e cartazes servem de mote para mostrar diferentes linguagens de comunicação que as empresas do Vinho do Porto adoptaram, que vão desde um estilo que recorre às emoções e evoca factos apelativos para o consumidor até se centrar nas características mais técnicas de cada vinho», diz.”

“As imagens em rótulos colados nas garrafas e os cartazes de publicidade deixam perceber a evolução quanto a estratégias de mercado, mas também das técnicas de impressão, cores, formatos e suportes. «A exposição aborda a imagem do Vinho do Porto a partir das linguagens de comunicação, que não está ainda muito estudado, em parte porque as fontes são escassas. Deste modo, acabamos por juntar estudos parcelares sobre a garrafa e sobre a publicidade para conseguir contar uma história», conta Natália.”

“No século XIX, D. Antónia Ferreira foi uma das primeiras produtoras de vinho a apostar na qualidade e mensagem do rótulo das garrafas. Segundo a nossa entrevistada, D. Antónia teve mesmo o cuidado de escolher uma gráfica francesa para fazer a impressão.
A mensagem transmitida é sobretudo de confiança e de qualidade: se no início do século tal imagem era dada pela quantidade de medalhas que um vinho recebia, hoje essa garantia é dada ao consumidor pela assinatura do enólogo ou pelas características do vinho», remata Natália.”

Segundo Francisco Providência, comissário da exposição, esta “relata uma sequência de acontecimentos e de formas que traduzem a evolução teórica das estratégias que subjazem à sua afirmação global. Olhando para as suas embalagens, rótulos e/ou cartazes impressos, até à primeira metade do século XX, verificamos a adopção de diferentes estratégias de persuasão visual que mais não são do que a tentativa de superação da experiência organoléptica do vinho, pela sua representação visual».”

“Rafael Bordalo Pinheiro nasceu a 21 de Março de 1846. Cresceu em Lisboa, numa família com ligações fortes à actividade artística. Frequentou a Academia de Belas Artes e tentou a pintura, mas foi no desenho, no desenho de humor e costumes, e na caricatura que se fixou, ao longo de praticamente três décadas da sua vida. Fundou e dirigiu publicações, ilustrou livros e jornais, aliou a escrita à imagem, num jornalismo muito vivo, crítico, por vezes mordaz, que abarcou todos os aspectos da vida política, intelectual e social do Portugal dos finais do século XIX… A liberdade, a alegria, a criatividade, o sentido crítico que valorizamos, no tempo que nos constituiu como País moderno, não teriam a expressão que lhes reconhecemos sem a obra de Rafael Bordalo Pinheiro.

Em 1883, Rafael Bordalo Pinheiro decidiu acrescentar às suas actividades de ilustrador e desenhador, a de ceramista. Escolheu as Caldas da Rainha, que nas duas ou três décadas anteriores ganharam reconhecimento nacional e internacional como centro produtor de uma louça decorativa de inspiração naturalista, à maneira do neo-palissy. Surgiu assim a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, um grande projecto empresarial, abrangendo diversos domínios da produção industrial de cerâmica, tecnologicamente avançado e muito exigente do ponto de vista financeiro. Como é sabido, esse projecto não teve vida fácil e não logrou todos os seus objectivos, mas Rafael Bordalo Pinheiro manteve-se, até 1905, à frente de uma oficina que renovou profundamente a cerâmica portuguesa, num constante desafio à inovação dos modelos, à imaginação artística e artesanal, e numa permanente transgressão dos limites do trabalho olárico. Caldas da Rainha adoptou Rafael Bordalo Pinheiro, viveu os seus momentos de desânimo e exultou com os seus êxitos. O talento e a energia de Bordalo não ficou confinado às instalações da sua oficina, invadiu a vila de então, comentou-a, interpelou-a, provocou-a.”  (texto de homenagem aos 100 anos de falecimento de Bordalo pinheiro)

“Caldas da Rainha, Leiria, 30 Mar (Lusa) 2009 – O grupo Visabeira de Viseu vai passar a ser o sócio maioritário da fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, de Caldas da Rainha, desconhecendo-se se a nova administração vai assegurar os 172 postos de trabalho. –  “A Visabeira irá ficar como sócia maioritária da Bordalo Pinheiro e tudo indica que as negociações possam terminar dentro de um a dois dias”, confirmou à agência Lusa o sócio minoritário da fábrica, Vera Jardim, que tem vindo a participar nas negociações desde que em Dezembro a empresa deixou de ter encomendas suficientes para ser viável.” (texto retirado do JN)

Tendo Rafael Bordalo Pinheiro ficado na história, como uns dos pioneiros do design português, artista bem polivalente e criativo, é uma pena que se tenha de discutir questões económicas (mais ou menos fáceis de se resolver). Não deveríamos nós orgulharmos-nos de um artista tão multifacetado? Não esteve aqui uma oportunidade de marcar uma linguagem visual em Portugal? Talvez sim, talvez não (afinal trata-se sobretudo de uma visão/expressão pessoal). De qualquer forma, Rafael Bordalo Pinheiro merece um esforço actual, para o manter na nossa história e no nosso património.

O estilo Português

Abril 28, 2010

Pensei bastante sobre o primeiro post que colocaria aqui…afinal, trata-se de dar um “estilo”, uma “personalidade” ao blog. Então a lógica foi “há algum estilo no design português?” Se há, é por aí que quero começar. E o típico dirá “não, nós só copiamos”. Mas será verdade?

Podemos ser bons a aproveitar boas ideias (ouvi isto recentemente e achei delicioso). E de onde vem o espírito do design? De uma imaginação in’fundamentada? Talvez não, talvez as boas ideias nasçam a partir de outras boas ideias.

A simplicidade nórdica, terá nascido de onde? A excentricidade latina vem de onde? Podemos pensar que o “clima vs paisagens” marcam um estado de espírito e esse espirito marca um estilo. E então aí sim, perguntamos “e o português, que estilo tem?”.

Antes de analisarmos o estilo do design português, temos de analisar o estilo português. E se realmente o nosso estilo estiver no “desenrasque”, como muitos dizem… não estará aí explicado o facto de tantos outros dizerem “que aproveitamos muito (bem) ideias dos outros”? Se assim for então poderemos dizer que “temos um estilo”.

mais351

Abril 24, 2010

Este blog foi criado com o objectivo de gerar discussão à volta do design, privilegiando o design Português.