“A Vista Alegre é fruto do sonho do típico homem moderno do século XIX, José Ferreira Pinto Basto. Influenciado pelo sucesso da fábrica de vidro da Marinha Grande, Pinto Basto decide criar uma fábrica de “porcelanas, vidro e processos químicos.

A Real Fábrica da Vista Alegre começou por fabricar vidro enquanto empreendia empenhados esforços para a produção de porcelana. Em 1832 um golpe de sorte predestina a produção de porcelana em Portugal ao sucesso. É encontrado um jazigo de caulino e este estava situado em Aveiro, próximo de Ílhavo, o que tornava o seu transporte relativamente fácil. À medida que crescia a qualidade da porcelana produzida na VA, menos atenção era dispensada ao vidro e cristal, tendo sido interrompida a sua produção definitivamente em 1880.

A partir de 1947 e até 1968, os contactos internacionais, a formação de quadros técnicos especializados, a aquisição de outras empresas, levaram a Vista Alegre ao desenvolvimento técnico e industrial esperado, assim como ao alargamento da oferta a novos mercados. Em 1964 é inaugurado o Museu Histórico da Vista Alegre expondo ao público peças representativas do longo e rico caminho percorrido.

Em Maio de 2001 dá-se a fusão do Grupo Vista Alegre com o grupo Atlantis, formando o maior grupo nacional de Tableware e sexto maior do mundo nesse sector: o Grupo Vista Alegre Atlantis.

Hoje a Vista Alegre, para além de ser líder de mercado em Portugal e possuir uma das melhores e mais automatizadas fábricas de porcelana de todo o mundo, continua a desenvolver e a preservar a porcelana feita e trabalhada à mão, honrando a sua história e tradição. Os serviços Vista Alegre são usados oficialmente pelo Presidente da República Portuguesa, mas também na Casa Branca e por muitas cabeças coroadas e políticos de todo mundo.”

Não sei porquê, mas a Vista Alegre é, para mim, umas das marcas que mais nostalgia me faz…. carrega só por si uma cultura própria. Não dizemos que é “Vista Alegre” com um tom depreciativo, mas antes com requinte. O que mais me agrada na marca, é a forma como acompanha os novos tempos: tem as suas peças clássicas, mas ao mesmo tempo consegue com todo o requinte produzir peças mais modernas e mais simples (a colecção “Heterónimos” é para mim das melhores).

A ligação entre a Vista Alegre e a Atlantis foi, de facto, brilhante. Os catálogos da Atlantis são verdadeiras obras de arte… fotografias de muito bom gosto, acompanhadas de peças  já por si lindíssimas. A Vista Alegre Atlantis abriu  no dia 9 de Junho uma loja em Madrid onde comercializa produtos da Vista Alegre, da Atlantis e da Bordallo Pinheiro. A inauguração contou com a apresentação de novas peças da Vista Alegre criadas pela artista plástica Joana Vasconcelos e uma linha de jarras decorativas criadas pelo designer espanhol Oscar Mariné. Temos aqui, uma verdadeira imagem de marca de Portugal, com maturidade e qualidade suficiente para servir de estandarte da nossa cultura.

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Oporto show 2010

Junho 21, 2010

“The Oporto Show é um manifesto internacional nas áreas do design e arquitectura de interiores (sectores de mobiliário, iluminação e tecidos). À semelhança da sua primeira edição, a mostra será constituída por diversos espaços cénicos, concebidos pelos profissionais das maiores marcas nacionais e internacionais. Inspirado nas mais conceituadas feiras mundiais do ramo, e após o sucesso alcançado na primeira e segunda edição, TOS’10 pretende ser o maior evento deste género na Península Ibérica.”

Decorreu entre os dias 17 e 20 de Junho a terceira edição do evento Oporto Show, tendo como cenário o lindíssimo edifício da Alfândega do Porto. Estiveram presentes marcas nacionais como Boca do lobo, Carvalho Araújo, Adico, Branco sobre Branco, Silampos, etc; e internacionais como GandiaBlasco, Tom Dixon, De la espada, Arper, Herman Miller etc. Existiu ainda um espaço denominado “Design manifesto” destinado a novos designers portugueses.

Foi neste espaço que a Carina Bernardete e o Daniel Vieira estiveram a expor com alguns projectos individuais. Esta foi a principal razão para ter visitado o evento no dia 19, por serem pessoas próximas. No geral achei que (não sei se por estarmos a atravessar um período de “crise”) o evento estava um pouco disperso. As marcas não estavam interligadas e pareciam pouco preocupadas em promover-se.  Isto leva-me a perguntar se o problema estará de facto na crise ou no medo que as marcas têm dela… sentimos um certo receio em arriscar. Honestamente prefiro pensar por este lado e não vê-lo como um descrédito das marcas pelo evento…afinal existiam marcas portuguesas e tratava-se de uma boa oportunidade de promoção.

Uma das marcas com que fiquei surpreendida foi a Boca do Lobo… talvez a minha expectativa estivesse numa abordagem mais pedagógica sobre a cultura e atitute portuguesa.  Esta marca tem posicionamento e identidade muito específicos aliados a uma política compreensivelmente virada para a exportação. São características que, obviamente, devemos elogiar… esperamos é que também seja dada  importância aos eventos nacionais e que possam “passar” o seu exemplo de sucesso aos novos designers portugueses.

Relativamente à Carina e ao Daniel (vencedor do prémio nacional Daciano da Costa 2009)  fiquei bastante agradada com a forma como apresentaram os seus objectos. De forma simples e bem pensada.

“Nascido em 1933 em Lisboa, Daciano Costa frequentou a Escola de Artes Decorativas de António Arroio e a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Com formação em pintura, DC começou a trabalhar no atelier do pintor e arquitecto Frederico George.”

Foi já neste momento que Daciano da Costa se apercebeu da necessidade de metodologia projectual. O certo é que Daciano da Costa é conhecido pelo seu método de observação perante o projecto…poderá ter nascido da sua formação base em pintura?

Li há pouco tempo o texto de Eduardo Côrte-Real “desenhar para perceber” onde é explicado o porquê da importância do desenho de observação no método projectual de Daciano da Costa. O autor descreve o método de ensino de Daciano como “um programa divido em três trimestres: Desenho de Observação, Experimentação da Cor e Transformação pelo Desenho.”

A cor assume-se com menor importância para o método projectual e são evidenciados o desenhos de observação e a tranformção pelo desenhos que são vistos respectivamente como “inquérito” e “solução de problemas”. E o autor vai ainda mais longe quando descreve as qualidades do desenho de observação como: Penetrado (estava no interior do tema. Era testemunha, tinha vivido, era parte do tema); Observado (que, como testemunha dentro do tema, tinha visto analiticamente o que o rodeava); Apreendido (que como consequência de testemunhar analiticamente tinha conservado e interiorizado essa experiência ao ponto de a reorganizar para a evocar (ou mesmo manipular).

Se formos a analisar o processo criativo dos designers actualmente, ser-nos-à fácil de admitir a presença de um desenho técnico final e, mais por acomodação do cliente, um render 3d que quanto mais fiel for, melhor. Será muito mais difícil de encontrar quem, por outro lado, use o desenho como forma de análise do projecto: há de facto recurso ao desenho na solução do problema… mas é muito mais raro encontrá-lo na análise desse problema.

E tal como Eduardo Côrte-Real afirma “Daciano tinha já dado demonstração cabal que, na sua obra, o processo funcionava”. Não deveríamos perder mais tempo nos cursos de design com os método tradicionais tantas vezes ignorados? O problema é que se muitas vezes essa disciplina de observação existe, raramente é explicada neste sentido… é quase sempre vista como “ensinar a desenhar melhor” e não “ensinar a projectar melhor”.

“Eu defendo uma atitude do designer que é a do designer invisível, em que ele não pode criar uma barreira entre quem emite e quem recebe. Eu defendo que o designer não tem que estar em primeiro lugar”.

Nasceu em Lisboa em 1957. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Foi director gráfico de diversas editoras e desenvolve actividade como designer gráfico. Em 1991, fundou o Atelier Henrique Cayatte onde desenvolve trabalho de design (em diversas áreas), de ilustração e de produção editorial.

Confesso a minha ignorância… não sabia que tinha sido o atelier Henrique Cayatte a desenhar a imagem mais recente das “Correntes D’escritas” da Póvoa. Esta imagem foi defendia à luz dos princípios do designer fundador, descrevem “o ícone é a letra, a marca são caracteres tipográficos e o código é conhecido de todos. Quando um texto é composto e paginado, a escolha do alfabeto adequado é determinante na boa leitura. O designer deve procurar, com a sua ‘invisibilidade’, reduzir a distância entre o texto original e aquele que vai ser fruído pelo leitor. Quanto menor for o ‘ruído’ maior a legibilidade”.

E não é a primeira vez que vemos Henrique Cayatte a defender o designer como um agente não activo, mas antes interprete, que conduz um processo de modo a chegar eficazmente ao produto final: “Design não é sinónimo de “bonito ou feio”. Para Cayatte o melhor serviço do design assenta na comunicação, podendo aliar o design gráfico, multimédia, informação… o objectivo nunca será “decorar”, mas antes passar uma mensagem.

Se formos a analisar o design em geral, poderemos englobar, mais que  o design papel/ecrã quando se fala em comunicação. Um produto, tenhamos por base o mobiliário, por exemplo, também tem que comunicar. Codificar a sua funcionalidade, esconder a sua performance, não será um exercício de um designer, mas antes de um “inventor”?

É claro que o tempo de “aprendizagem” na leitura de um texto  e na utilização de um objecto é completamente diferente, sendo que no primeiro a leitura é feita num só momento, e a utilização de um “armário” será feita por repetição. De qualquer das formas, se tivermos de explicar como se abre uma porta de um armário, ou se tira um café de uma máquina sempre que existe um novo utilizador, estaremos perante um bom exercício de design? Eu penso que não… um bom objecto é aquele que conta uma história, sem que tenhamos necessidade de a explicar.

Tapetes de Rua

Junho 13, 2010

Penso que existe em várias cidades uma festa religiosa em que a procissão passa por cima de bonitos tapetes feitos pela população. Estes tapetes podem ser feitos com flores naturais ou simplesmente com serrim pintado de diferentes cores. O seu método de produção envolve uma certa metodologia e muita entrega por parte das pessoas: a partir de moldes que são colocados no chão são agrupadas as flores ou o serrim, para que se transformem em formas variadas que no seu conjunto formam bonitas composições. Os tapetes têm sempre na sua extremidade desenhos relativos à festa religiosa, sendo que estas são as partes mais complicadas de produzir, pois não são feitas por repetição.

O mais interessante destes tapetes é mesmo a entrega da população que trabalha arduamente na noite anterior no tapete da rua onde vive. Mesmo durante o dia, é necessário ir regando as flores ou o serrim, para que não voe com o vento…e não se vê apenas as pessoas mais idosas, mas também crianças e jovens. É um bom exemplo de organização em grupo e metodologia aplicada a um “produto” festivo.